Já ninguém estranhava. Desde que o filho morrera em Angola, na guerra, a Ti Custódia desatara a falar sozinha. A toda a hora: enquanto varria as folhas secas da figueira e das trepadeiras no quintal. Na estrada velha a caminho da mercearia do Jonico onde ia comprar pão. Na cerca onde plantava umas batatas e outros legumes para o gasto da casa. Por vezes eram conversas intermináveis, feitas de meias frases, de palavras sem nexo que ninguém entendia. As pessoas passavam e cumprimentavam-na: Como vai, Ti Custódia? Mas ela nem respondia. Absorta no falajar, nem dava pelo cumprimento.
Mas era no meio da Ria, na solidão de gaivotas e caranguejos, curvada sobre o viveiro de amêijoas que limpava, que Ti Custódia soltava, num desespero de gestos e palavras gritadas, a dor imensa que lhe cortava a alma: Volta filho, volta que a mãe morre de saudades de ti...
Cá de cima, encostado ao muro do velho Forte da vila, paredes meias com a igreja, debruçado sobre a Ria Formosa, o guarda-fiscal Matias olhava Ti Custódia e não conseguia deixar de suspirar. Ao contrário do que dizem as pessoas e os livros – pensava -, há coisas que o hábito e o tempo não desvanecem. Coisas boas e coisas más.
Para ele, Matias, era bom olhar a beleza azul-esverdeada da Ria Formosa, as águas mansas espraiadas na maré alta, apertadas na maré baixa, o veludo escuro do chão lodoso à vista.
Havia quase vinte anos que viera para aquele posto e todos os dias se encostava ao muro do Forte e olhava a Ria com os mesmos olhos extasiados da primeira vez: os barcos e bateiras a balouçar, os voos circulares ou picados das gaivotas, as marcas verticais dos viveiros, o labor humano dos homens e mulheres que cuidam da amêijoa em crescimento. Depois os olhos perdiam-se na ilha estreita e comprida, no areal fulvo, na linha densa das copas redondas dos arbustos baixos. E, logo a seguir, no mar. No azul do mar a prolongar-se, em dobra na linha do horizonte, no azul suave do céu. E sobre tudo, e sobre todos, a luz intensa e o quente sol de oiro do Algarve, em reverberações de cal branca e cores garridas.
Mas, para Ti Custódia, a beleza da Ria escoara-se no lodaçal no dia em que soube que o seu menino, a combater lá longe, em África, morrera. Para ela, o tempo não iria curar nunca a ferida e o vazio do filho que lhe fora arrancado. Meu menino! Meu menino...
Ainda por cima, o corpo do filho nunca lhe fora entregue, pensava o guarda-fiscal Matias, a fixar o vulto escuro de Ti Custódia, curvada no viveiro. Muitos voltavam em caixões de chumbo, e as famílias sempre podiam, ao menos, aliviar a mágoa com o funeral e o luto. Mas assim...
E agora, cinco anos depois do telegrama oficial com a trágica notícia da morte do filho, o outro filho da Ti Custódia, o mais novo, estava a um passo de ir para a tropa... e para a guerra no Ultramar, como o irmão.
Pobre Ti Custódia, pobres moços com a vida e a juventude truncadas, que raio de guerra esta!...
*
«Mãe, tenho uma coisa para lhe dizer. É uma coisa muito importante. Uma coisa que a mãe não pode nunca repetir. Nunca, a ninguém, nem à nossa Fatinha, pois a minha irmã ainda é muito nova e estouvada e pode descair-se com alguma palavra.»*
«Ó mãe, já sabe o que sucedeu?»*
De pé, no meio da Ria em baixa-mar, Ti Custódia deu por findo o trabalho desse dia no viveiro. Foi então que avistou o filho. Vinha a descer a falésia em direcção à Ria. Era tão parecido, este seu menino, com o irmão que morrera na guerra... Que lhe quereria ele? Não conseguiu deixar de se assustar. Será desta que sempre vai dar o salto? Será a despedida?Palavras para quê?
São folhas da história deste povo, que aprendeu a sorrir.
Muito bonito. Até parece que estava a ver a velhota e a Ria. Triste mas muito bonito, mas nesse tempo era assim mesmo, né? Era a guerra em África, havia alguns que fugiam para não irem combater e havia também muita gente que ia para França e Alemanha ganhar a vida, qu`ìsto por cá era terra de gente pobre e mal-paga. Não sou desse tempo mas são os meus pais, tios e primos mais velhos, ouço muitas histórias.
Afixado por: Ricardo Gomes em abril 26, 2004 09:23 PM